Sociedade de Estudo Psicanalítico Contemporâneo

... Confiabilidade, comprometimento, contentamento do cliente, transparência, ajustamento, ética e valorização do profissional, estas são as propostas da SEPC. Atuando como Referencia de nobreza da Psicanálise.

"A aceitação de processos psíquicos inconscientes, o reconhecimento da doutrina da resistência e do recalcamento e a consideração da sexualidade e do complexo de Édipo são os conteúdos principais da Psicanálise e os fundamentos de sua teoria, e quem não estiver em condições de subscrever todos eles não deve figurar entre os Psicanalistas".

Sigmund Freud



quinta-feira, 27 de maio de 2010

Mitomania "compulsão pela mentira"

         
          A mitomania é a tendência patológica mais ou menos voluntária e consciente para a mentira. Normalmente, as mentiras dos mitomaníacos estão relacionadas a assuntos específicos, porém podem ser ampliadas e atingir outros assuntos em casos considerados mais graves . Uma menina cujo pai é violento, por exemplo, pode começar a inventar para as colegas como sua relação com o pai é boa e divertida, contando sobre passeios e conversas que nunca existiram. Justamente pelos mitômanos não possuírem consciência plena de suas palavras, os mesmos acabam por iludir os outros em histórias de fins únicos e práticos, com o intuito de suprirem aquilo de que falta em suas vidas. É considerada uma doença grave, necessitando o portador dela de grande atenção por parte dos amigos e familiares.

Sobre a doença
          Dizer a verdade é um sofrimento para quem tem mitomania, doença definida como uma forma de desequilíbrio psíquico caracterizado essencialmente por declarações mentirosas, vistas pelos que sofrem do mal como realidade.
          Desse ponto de vista, podemos dizer que o discurso do mitômano é muito diferente daquele do mentiroso ou do fraudador, que tem finalidades práticas. Para estes, o objetivo não é a mentira, sendo esta apenas um meio para outros fins. Contam histórias ao mesmo tempo que acreditam nelas. É também uma forma de consolo.
          Esse distúrbio tem sua origem na supervalorização de suas crenças em função da angústia subjacente. Muitas vezes as mesmas se apresentam unidas à angústia profunda, TOC, depressão e pós depressão.
          De um lado, o mitômano sempre sabe no fundo que o que ele diz não é totalmente verdadeiro. Mas ele também sabe que isso deve ser verdadeiro para que lhe garanta um equilíbrio interior suficiente. Em determinado momento, o sujeito prefere acreditar em sua realidade mais que na realidade objectiva exterior. Ele tem necessidade de contar essa história para se sentir tranquilizado e de acordo consigo mesmo.
          A mitomania não pode ser considerada como uma mentira compulsiva, e sim como uma doença que se não tratada pode causar transtornos sérios à pessoa que possui. Em geral, essa manifestação deve-se à profunda necessidade de apreço ou atenção.
         A maioria dos casos de mitomanía, ao serem expostos, tornam-se vergonhosos. Todavia, os mitômanos que buscam ajuda por vontade própria, pedindo a seus familiares e principalmente aos seus amigos, são considerados extremamente raros, pois eles veem que estão sofrendo de um mal e desejam acima de tudo curar-se. O papel dos companheiros se torna extremamente importante na vida do indivíduo que sofre da doença, já que eles que irão indicar os pontos e erros.
          Grande parte dos casos de mitomania levam ao suicídio, principalmente se associados a depressão e pós depressão. O indivíduo ao não obter o apoio necessário e ser excluído daquele grupo que frequentava ou participava acaba por vivenciar uma situação sem saída, isto é, o mesmo acaba por ser excluído de seus gostos e vê-se sem aquilo que ama e deseja. Casos comuns demonstram que mitomaníacos envergonhados de si, pelo porte de sua doença, infligem-se o óbito quando abandonados por amante, que não compreendem a sua doença e o abandonam, não acreditando na possibilidade de uma cura ou não restabelecendo os laços afectivos de antes.
         Aconselha-se aqueles que rodeiam o mitômano, principalmente se o mesmo obteve uma conversa clara expondo a sua vontade de melhora, a não largarem-no, podendo tal atitude acarretar desejos inconstantes, profunda melancolia, depressão e desejo de suicídio da parte do mitomaníaco. Inicialmente o mesmo apresentará sintomas de solidão e grande desejo de estar acompanhado daqueles que ama. Contudo, ao ver que isso não é possível, acaba optando pelo desejo de morte.
Motivação
          Não se sabe ao certo os motivos pelos quais a mitomania se manifesta. Primeiro, porque acarreta milhares de fatores sócio-psicológicos da pessoa afetada e, segundo, porque enfatiza uma situação social, podendo, então, mostrar-se eventual dependendo das circuntâncias presentes na época em que o indivíduo está vivendo. Na maioria das vezes é por desejo de aceitação daqueles que o rodeiam.
Cura
          A cura do indivíduo reside muitas vezes na implementação de um quadro de cuidados que associa o tratamento em meio psiquiátrico do problema subjacente a um acompanhamento psicoterapêutico. Tal acompanhamento torna-se a parte mais importante, sendo realizado pelas pessoas que rodeiam o mitômano e que o mesmo requisitou para ajudá-lo. É importante nunca negar ao mesmo tal acompanhamento, sendo este a chave para a cura, até mais importante que um tratamento psiquiátrico.

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Transtorno de Personalidade Borderline


 Seqüelas de abuso na infância

          Borderline é um transtorno de personalidade que traz sérias conseqüências para a pessoa, seus familiares e seus amigos próximos. O termo "fronteiriço" não se refere ao limite entre um estado normal e um psicótico. Ele se refere a uma instabilidade constante de humor.
          Não é muito freqüente. Nos USA se considera 2% da população, (mas cuidado, geralmente as estatísticas lá são exageradas). Muito mais freqüente em mulheres do que em homens (por isso a página é escrita no feminino).
1) Sintomas (claro que nem todas as Borderline tem todos estes sintomas):
     • Medo de abandono: uma necessidade constante, agoniante de nunca se sentirem sozinhas, rejeitadas e sem apoio.
     • Dificuldade de administrar emoções
     • Impulsividade.
     • Instabilidade de humor. As oscilações de humor do DAB ou TAB - Distúrbio ou Transtorno Afetivo Bipolar duram semanas ou meses, mas as Borderline têm oscilações de minutos, horas, dias. Essas oscilações de humor incluem depressões, ataques de ansiedade, irritabilidade, ciúme patológico, hetero- e auto-agressividade. Uma paciente marca a consulta informando que está super deprimida, querendo morrer. No dia seguinte chega à consulta bem humorada, bem vestida, maquiada, vaidosa.
     • Comportamento auto-destrutivo (se machucar, se cortar, se queimar). As portadoras de Borderline dizem que se machucam para satisfazer uma necessidade irresistível de sentir dor. Ou porque a dor no corpo "é melhor que a dor na alma".
     • Tentativas de suicídio, mais freqüentemente as de impulso do que as planejadas.
          • Mudanças de planos profissionais, de círculos de amizade.
          • Problemas de auto-estima. Borderlines se sentem desvalorizadas, incompreendidas, vazias. Não tem uma visão muito objetiva de si mesmos.
          • Muito impulsivas: idealizam pessoas recém conhecidas, se apaixonam e desapaixonam de maneira fulminante.
          • Desenvolvem admiração e desencanto por alguém muito rapidamente.
         • Alta sensibilidade a qualquer sensação de rejeição. Pequenas rejeições provocam grandes tempestades emocionais. Uma pequena viagem de negócios do namorado ou marido pode desencadear uma tempestade emocional completamente desproporcional (acusações de rejeição, de abandono, de não se preocupar com as necessidades dela, de egoísmo, etc.).
          • A mistura de idealização por alguém e a extrema sensibilidade às pequenas rejeições que fazem parte de qualquer relacionamento são a receita ideal para relacionamentos conturbados e instáveis, para rompimentos e estabelecimento imediato de novos relacionamentos com as mesmas idealizações.
          • Mais raramente, episódios psicóticos (se sentirem observadas, perseguidas, gozadas, comentadas).

2) Risco aumentado para:
          • Compras Compulsivas.
          • Sexo de risco.
          • Comer Compulsivo, Bulimia, Anorexia.
          • Depressão.
          • Distúrbios de Ansiedade.
          • Abuso de substâncias.
          • Transtorno Afetivo Bipolar.
          • Outros Transtornos de Personalidade.
          • Violência (não só sexual), abusos e abandono, por causa da impulsividade e da falta de crítica para escolher novos parceiros.

3) A causa provável é uma mistura de:
          • Vivências traumáticas (reais ou imaginadas) na infância, por exemplo abuso psicológico, sexual, negligência, terror psicológico ou físico, separação dos pais, orfandade.
          • Vulnerabilidade individual.
          • Stress ambiental que desencadeia o aparecimento do comportamento Borderline.
          • Cuidado com conclusões precipitadas do tipo "você foi abusada" ou "você foi aterrorizada".

4) Evolução:
          • Geralmente começa a se manifestar no final da adolescência e início da vida adulta.
          • Com o passar dos anos existe uma diminuição do número de internações hospitalares e de tentativas de suicídio.
          • Parece piada de mau gosto, mas é uma realidade estatística: a cada tentativa de suicídio que a Borderline sobrevive, diminui a chance de uma nova tentativa.

5) Fatores de bom prognóstico:
          • Bons relacionamentos familiares, sociais, afetivos, profissionais.
          • Participação em atividades comunitárias: igrejas, clubes, associações culturais, artísticas, etc.
          • Baixa ou ausente freqüência de auto-agressão.
          • Baixa ou ausente freqüência de tentativas de suicídio.
          • Ser casada.
          • Ter filhos.
          • Não ser promíscua.

6) Tratamento.
          A integração de tratamentos medicamentosos mais psicoterápicos trouxe grandes progressos no tratamento do Transtorno Borderline.

          • Medicação:
          O tratamento medicamentoso inclui Estabilizadores de Humor (mesmo que não se trate de DAB), pois eles ajudam a conter a impulsividade e as oscilações de humor.
          Antidepressivos e Tranqüilizantes não tem a mesma eficácia que teriam em casos de depressões ou ansiedades "puras", mas certamente tem sua utilidade em Borderline.
          Embora a medicação seja muito importante, ela é ator coadjuvante. O ator principal no tratamento é a Psicoterapia.

          • Psicoterapia:
          As mais úteis são as Psicanalíticas. Não é uma terapia fácil. O que acontece "na vida real" acontece dentro do consultório: instabilidade, alternância de amor e ódio, idealização e desapontamento com o terapeuta, sedução, impulsividade, etc. Isso quer dizer o seguinte: o tratamento exige paciência, persistência, disciplina, boa vontade, etc.



segunda-feira, 24 de maio de 2010

Não é bem isso o que eu queria dizer...

     
           Alguns estudiosos da linguística defendem que o sentido das palavras só existe na medida em que há uma contraposição, uma diferença, uma outra possibilidade, uma particularidade. Nomear é diferenciar.
          Parece estranho, mas não é. Toda afirmação existe em oposição a uma não-afirmação, mais especificamente a uma negação.
          Muitos devem se lembrar daquele bebê da Família Dinossauro que invocava o papai Dino como "Não-é-a-mamãe". O "pai" só aparece por ser outro que não a mãe.
          Aprendemos com René Spitz em seu livro "O não e o sim" (No and yes. On the Genesis of Human Communication. International Universities Press, Inc. New York, 1957) que a primeira palavra com sentido semântico pleno utilizada pela criança é o NÃO, embora muitos pais e mães se encantem com os balbucios de seu filhote (papá, mamã) e disputem qual deles foi primeiramente nomeado.
          O conversar comum, cotidiano, progride e se prolonga através de mal-entendidos, desmentidos e correções, logo seguidas de novos dizeres, cada vez mais necessários: "Não é bem assim", "O que eu queria dizer mesmo é...", "Você não entendeu direito", "Exatamente o que aconteceu?", "Quando falei tal coisa, é porque...", "Como assim? Explique melhor"...
          Neste pequeno texto que estou escrevendo, cada parágrafo procura reforçar o anterior, re-afirmar a idéia, prevenir possíveis distorções no entendimento, convencer pela repetição, demonstrar o que foi dito, etc. A linguagem, definitivamente, é capenga e insuficiente para dizer tudo...
          Já em 1901, Freud publicou um delicioso artigo, intitulado Psicopatologia da vida cotidiana (Psychopathology of everyday life), no qual aborda o tema dos atos falhos.
          O conceito de ato falho (Fehlleistung, em alemão) não constava nos manuais de Psicologia e foi inventado por Freud. Na tradução inglesa, traduziu-se como parapraxis (parapraxia, em português).
          [Parapraxia, segundo o Houaiss, é um termo originado diretamente do grego, pela justaposição do prefixo "par(a)" com o substantivo "praxis" = ação. "Par(a)" tem muitas acepções: 1) 'proximidade': parágrafo, paraninfo, paratireóide, parenteral, parêntese, parótico, parótida; 2) 'oposição': paranomia, paradoxo; 3) 'para além de': parapsicologia, parapsíquico; 4) 'defeito': parafasia, paralexia, paramimia, paramnésia, paraplegia; 5) 'semelhança': parastaminia, parastêmone, parastilo].
          Na tradução brasileira das Obras Completas de Freud (Edição Standard, Editora Imago), encontramos a expressão ato falho, que pode ser, por exemplo, o esquecimento de algo importante, de um nome, o desvio em um trajeto predeterminado, a troca de palavras, etc. Distingue-se do erro comum, fruto da ignorância, imperícia ou conveniência. Ao cometer um ato falho, ninguém pode dizer "Eu não sabia" nem é possível renegá-lo: cai-se o véu, desvela-se algo oculto.
          Os atos falhos são também conhecidos como lapsos (do latim, lapsus = escorregar, escapar) , aparecendo em compostos:
           • Lapsus linguae = erro acidental ao falar, que altera o sentido que se pretendia dar à frase e que é interpretado (por influência da psicanálise) como expressão de pensamentos reprimidos;
          • Lapsus calami = erro acidental ao escrever (do latim, calamus = caneta, pena com que se escreve);
          • Lapsus memoriae = falta de lembrança; recordação defeituosa ou inexata.
          A descoberta freudiana do significado dos atos falhos é tão importante quanto sua teoria acerca da Interpretação dos Sonhos.
          Elementos dos sonhos e das parapraxias são indicadores de que existem conteúdos inconscientes, reprimidos, que saltam à luz por uma falha nas defesas do sujeito. Portanto, são um caminho privilegiado para o entendimento da vida psíquica normal, assim como as descobertas anteriores permitiram a Freud teorizar sobre as neuroses.
           Psicopatologia da vida cotidiana foi muito valorizado pelo criador da Psicanálise pois, segundo ele, "seria imune a objeções, já que os atos falhos eram fenômenos experimentados por qualquer pessoa normal".
          O artigo é muito interessante, tem uma linguagem clara e acessível, ilustrada com uma série infindável de exemplos. Há o orador que, ao abrir uma sessão solene, diz: "Tenho muito prazer em encerrar esta sessão!", deixando evidente seus desprazer em estar ali.
          A tese central de Freud é que os atos falhos, incluindo-se os lapsus linguae, são determinados por elementos que o sujeito não pretendia enunciar e seu significado oculto só aparece justamente na hora em que escapa ao controle da repressão. Assim, no velório, o cunhado diz para a viúva: "Meus parabéns", ao invés de dizer: "Meus pêsames". São eventos tão comuns e óbvios, por isso Freud os inclui como exemplos da psicopatologia da vida cotidiana.
          O enunciante é surpreendido pelo que acaba de falar. Pode até ocorrer que ele não perceba, mas o interlocutor não deixará passar em branco. Pode provocar risos ou desconcerto, dependendo do conteúdo revelado.
          O conceito de ato falho já caiu no domínio do senso comum, ou seja, quando alguém diz sim, querendo dizer não, o que vale é o sim! Vale o dito.
Elucubrado por Claudio Costa



quarta-feira, 28 de abril de 2010

“ONDE HOUVER ID, HAVERÁ EGO”

  *       

          O centro do pensamento de Freud era que a subjetividade do homem é, de fato, determinada pelos fatores objetivos – Objetivos na medida em que se relacionam à própria consciência do homem – e que agem a revelia dele, por assim dizer, determinando-lhe pensamentos e sentimentos, e assim, indiretamente, seus atos. O homem, tão zeloso de sua liberdade de pensar e escolher, é na realidade, uma marionete movida pelos cordéis, atrás e acima dele, e que por sua vez são dirigidos por fatores desconhecido de sua consciência.
          Para dar-se a ilusão de que age segundo sua vontade, o homem inventa racionalizações que lhe dão a impressão de agir como age, por ter escolhido livremente a sua atitude, movido por motivos racionais ou morais. Mas Freud não conclui com uma nota de fatalismo, confirmando a incapacidade do homem em relação às forças que o determinam, e sim, que o homem pode adquirir consciência dessas forças que atuam a sua revelia – e com isso ampliar o âmbito de sua liberdade e transforma-se de um joguete movimentado por forças inconscientes, num homem livre e consciente, determinando seu próprio destino. Freud expressou esse objetivo nas palavras “ONDE HOUVER ID, HAVERÁ EGO”.
          Uma questão curiosa que não podemos deixar de lado é que todas essas características que julgamos naturais e inerentes ao ser humano são, na realidade, frutos de sentimentos reprimidos na infância, que concomitantemente reflete na fase adulta, sob a ação dos fatores: Antropológicos (FA), Biológicos (FB) e Psicológicos (FP). A finalidade da ação destes fatores é levar o indivíduo a ter um conceito inferior de si mesmo. Relembro o que diz o mestre Ariosto Mota: “A consciência deve dar ao indivíduo a noção de que ele deve lutar por si mesmo, visto que, ela existe não para tornar negra a sua vida interior, mas para libertá-lo. Se você não for por você quem será?”
                                                                                  (Oliveira, Jorge Luiz Souza de)

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A compulsão pelo poder


Em primeiro lugar, convido o leitor a deixar de lado a questão moralista que logo vêm à mente quando falamos sobre o tema da compulsão. Se desmembrarmos a palavra, temos o prefixo “com” seguido da palavra “pulsão”, que significa desejo. O desejo é a raiz da tenacidade, da vontade de lutar para conseguir algo. A Vontade de Poder no pensar de Winnicott, sábio psicanalista inglês, é um impulso constante e irrefreável, tomado como um paradigma de sentir-se vivo e o que nos move para realizar nosso propósito de sobrevivência. As pessoas que exercem papéis dominantes no mundo têm geralmente um imenso potencial de vida que pode conduzir a um perfil de tenacidade e de auto determinação. Tomemos o exemplo de empresários de vários setores da economia que construíram impérios num Brasil onde tudo era quase incipiente. Ou Barack Obama, que jamais teria vencido as eleições se não possuísse em certa medida um aspecto compulsivo, que o fez ser capaz de dormir apenas três horas por noite durante um mês inteiro de campanha.
        Mas, embora exista um lado positivo dos traços compulsivos, esse caminho varia bastante e pode eventualmente enveredar para um comportamento psicopatológico.  Isso se dá quando uma pessoa afunila o leque de possibilidades de realização de seu desejo. Para a psicanálise, é essencial investigarmos como se deram as primeiras experiências de afeto e de vínculo de um paciente, pois estas experiências serão pela vida afora os protótipos da noção do que é valoroso para cada si mesmo. De uma forma simples, a experiência do leite materno, valioso não só como alimento, mas como fonte de amor e carinho, deixa suas marcas como modelo do que se pode desejar e buscar.
A compulsão doentia caracteriza-se como uma busca frustrada de preenchimento de algum vazio afetivo. Como exemplo, um empresário pode usar sadiamente sua atividade profissional para preencher de alguma forma sua vontade de ser feliz. Mas se o trabalho for apenas um meio de dominação para sentir-se poderoso, este poder será vazio de satisfações mais profundas e consistentes. Nesse caso, o poder não é um alimento para a mente que acaba se estreitando pelas contínuas decepções e levando muitas vezes à completa desesperança . Mesmo pessoas que lideram grandes impérios podem entrar por essa via torta. Se observarmos a crise econômica atual, talvez ela tenha em suas raízes uma compulsão pelo dinheiro, com interesses unicamente financeiros, ultrapassando os limites do que é plausível.
As patologias ligadas a compulsões intensas não dependem da situação socioeconômica do individuo. As violências gratuitas são exemplos disso. Apenas talvez os mais ricos tenham mais meios de disfarce para o sofrimento, expressado então, em atos compulsivos, como compras exageradas, coleções de sapatos, de arte indiscriminada, de parceiros sexuais. Porem o preço que se paga nessa tentativa de apaziguamento da dor é muito alto, desde que vai afastando o sujeito, cada vez mais, de sua dor genuína. Também a necessidade de manutenção de uma boa imagem social é mais freqüente entre os das classes mais altas, ainda que não corresponda aos seus desejos genuínos. Dessa necessidade derivam vários dos comportamentos compulsivos atuais como exigências de boa silhueta, de não sofrimento, de sinais aparentes de riqueza etc.
Muitas vezes em nossos consultórios nos deparamos com pacientes que aparentam ser insensíveis à família, aos que os rodeiam ou à problemática social. O que existe de fato é muito sofrimento encoberto pela concepção de que seu status de poder seria abalado caso entrassem em contato com suas angustias, pois seriam dominados por suas sensibilidades afetivas em detrimento da realidade dos fatos e de suas racionalidades.  A experiência clinica demonstra o contrario, pois o processo analítico ao ampliar as ferramentas de sobrevivência também amplia as condições de maior desenvoltura financeira.
Os medicamentos disponíveis sem duvida facilitam o controle da angustia subjacente aos atos compulsivos, mas a meu ver o tratamento de pessoas com alto grau de compulsividade deve passar pelo resgate e revisão profunda dos meios utilizados para a obtenção do sentimento de poder de estar vivo assim como de melhor qualidade vida.   
Maria Olympia França é psicanalista, membro docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise e representante na comissão de ética da IPA – International Psichoanalitical Association. Seu trabalho “Freud, Cultura Judaica e Modernidade” obteve o premio Jabuti 2004 na categoria Educação, Psicologia e Psicanálise. 

Por Maria Olympia França

O valor da educação afetiva


         Segundo a teoria psicanalítica, o ser humano é um subproduto das variadas relações que lhe sucedem desde seu nascimento e, segundo esta ótica analítica, as primitivas relações que marcam sua infância, são as mais significativas para formação de seu caráter.
          Os pais como agentes primários deste importante processo de montagem inter-pessoal, são os elementos mais importantes para que aja uma satisfatória adaptação do novo sujeito em formação. Em linguagem técnica dizemos que a criança precisará “internalizar de forma positiva” as imagens de seus pais, ou dizendo isso de outra forma, a vinculação fortemente afetiva que uma criança vivencia juntos aos seus pais lhe confere um forte senso de autoconfiança, assim, ao aprender confiar em seus pais, passa intimamente a confiar em si mesma.
          Ainda segundo a psicanálise, cada um dos pais influencia um aspecto importante da personalidade em formação; a mãe é o símbolo maior da vida afetiva, por isso, sua presença é vital para o equilíbrio emocional da criança; já o pai é o símbolo da relação que a criança deve ter com o mundo externo, o pai com sua presença afetiva é o elemento que dá acesso à lei, sua imagem é a representação da necessidade racional de se vincular a uma certa normatividade externa.
          Infelizmente, nossa vivência social é fortemente marcada pela dissolução familiar, cada vez mais mães solteiras são obrigadas à cumprir duplamente às funções materna e paterna. Logicamente, nem sempre o esforço feito pela mãe em suprir o modelo paterno dá resultado, a mesma por força de uma necessidade óbvia, acaba por se ausentar por muito tempo (visando sustentar economicamente a família), essa lacuna relacional quando muito prolongada traz conseqüências extremamente negativas.
          Uma pesquisa recente, divulgada pela Fundação Casa (antiga FEBEN), revela as conseqüências funestas da desestruturação familiar, bem como, insinuar claramente que há uma forte ligação entre a ausência da imagem paterna e o ingresso precoce na criminalidade. A referida pesquisa revela que em São Paulo, 51% dos menores infratores internados nas unidades da Fundação Casa não conviviam com o pai, também, a mesma pesquisa estabelece estatisticamente que a grande maioria dos menores infratores são do sexo masculino.
          No caso das meninas, um levantamento feito pela Casa do Adolescente, um órgão governamental que oferece orientação sexual aos jovens, estima que cerca de 40% das garotas atendidas pelo projeto, foram abandonadas pelos parceiros antes do nascimento do bebê e, grande parte dos que permaneceram juntos com as parceiras mais tempo, nem sequer visitaram a criança na maternidade.
          Lamentavelmente, as famílias mais pobres são as mais atingidas e, a desestruturação em série acaba por perpetuar a ausência do modelo paterno, desembocando enfim, na delinqüência infantil e na criminalidade.
          No entanto, o estudo citado indica que é cada vez maior a participação de jovens da classe média envolvidos com a marginalidade, isso justifica a idéia que diz que não é propriamente a pobreza o elemento principal na delinqüência juvenil (embora seja incontestável que tal situação sócio-econômica é um elemento agravante) e, sim, a carência afetiva sentida nessa fase tão importante para montagem pessoal.
          O próprio estilo capitalista é o maior fomentador da crônica desestruturação familiar contemporânea. É cada vez mais comum recebermos em nossos consultórios pais desatentos (para não dizer apáticos) em referência a educação familiar, os mesmos estão muito interessados em sua “realização profissional”; querem uma desejável estabilidade econômica para consumirem todas as mercadorias oferecidas pelo sistema, essa ânsia por um reluzente sucesso econômico, acaba por enfraquecer às relações afetivas, por fim, as famílias ficam cada vez mais ricas e estáveis financeiramente e, contraditoriamente, cada vez mais pobres e vazias afetivamente.
          É verdade que às vezes a separação é inevitável, porém, o fato dos pais não conviverem mais juntos não justifica a ausência afetiva de qualquer um dos dois (ou pior, os dois) na educação familiar. O processo de socialização primária, realizado no âmbito familiar é crucial para estabelecer as bases normais da personalidade considerada estável e produtiva.
          Escolher educar afetivamente nossos filhos se configura muitas vezes como um contra-senso frente à lógica vigente, afinal, ao escolher devotar mais tempo e afetos aos que nos são caros, muitas vezes perdemos “dinheiro”, ou valiosas oportunidades de ascensão profissional, porém, toda escolha existencial implica em certa “perda”, o que devemos mensurar é o que consideramos subjetivamente de maior valor.Entender bem a vivência infantil e dar suporte afetivo a criança, se configura certamente na melhor forma de ler no presente, o futuro da humanidade.

sábado, 13 de março de 2010

O QUE É PSICANÁLISE?


É a ciência/arte que objetiva a transposição inconsciente/consciente. Considerada como a forma de tratamento das “psiconeuroses” tem por norma seu tratamento através de:
a) Processo de Livre Associação de Idéias;
b) Interpretação dos Sonhos;
c) Observação e Análise do fenômeno da Transferência;
d) Análise dos Atos Falhos (Parapraxias) e da Resistência.
SUA ABRANGÊNCIA LIMITA-SE:
Ao método de investigação do inconsciente;
À psicoterapia baseada nesse método e;
Ao conjunto de teorias e normas em que são sistematizados os dados introduzidos pelo método psicanalítico.
A Psicanálise é recente. Nasceu no século passado, das experiências clinicas de Breuer e Freud, no tratamento de distúrbios nervosos e, em curto espaço de tempo, se constituiu em ciência autônoma, com princípios e métodos próprios: a ciência do inconsciente psíquico.
É bem verdade que, através dos séculos, o inconsciente foi suspeitado por filósofos, místicos, médicos e escritores, como Platão, Sócrates, Hipócrates, Santo Agostinho, Spinoza, Carus, Hartmann e outros.
Mas a antiguidade se preocupou apenas filosoficamente com essa esfera psíquica, descurando o seu valor prático. “O conceito de inconsciente – diz Freud – batia, de há muito, às portas da psicologia, e a filosofia, como a literatura, namorava-o, mas a ciência na sabia como utilizá-lo. A psicanálise fez sua essa idéia, considerando-a seriamente e dotou-a de um novo conteúdo. As pesquisas psicanalíticas encontraram certos caracteres, até então insuspeitos, do psiquismo inconsciente e descobriram algumas das leis que o regiam”.
As primeiras concepções experimentais sobre o inconsciente datam da segunda metade do século XIX, em decorrência de três fatos:
O interesse da medicina pelas neuroses e, particularmente, pela história:
A utilização da hipnose como meio de investigação e terapia dos distúrbios mentais;
A descoberta da opção patogênica das lembranças inconscientes de acontecimentos traumáticos.
QUEM É O PSICANALISTA?
É um profissional que pratica a Psicanálise em consultórios, Clínicas, Escolas, Empresas e até Hospitais, empregando metodologia exclusiva ao bom exercício da profissão, quais sejam, as técnicas e meios eficazes da Psicanálise no tratamento das psiconeuroses. Para atingir plenamente seus objetivos, o Psicanalista deve ser uma pessoa com sólida formação humanitária, visto que a profissão requer uma acentuada cumplicidade entre analista e seu paciente. Os Psicanalistas têm sua profissão classificada na CBO (Classificação Brasileira de Ocupações) no Ministério do Trabalho - Portaria nº 397/TEM de 09/10/2002, sob o nº 2515.50, amparada pelo Decreto nº. 2.208 de 17/04/1997, que estabelecem Diretrizes e Bases da Educação Nacional e pela Constituição Federal nos artigos 5º incisos II e XIII, podendo exercer sua profissão em todo o Território Nacional.
O QUE FAZ O PSICANALISTA?
O psicanalista é o profissional que aplica os princípios, os postulados, as técnicas e os métodos da psicanálise no tratamento ou na prevenção de distúrbios psíquicos de natureza inconsciente, tais como:
1° Perturbações caracterológicas e estados neuróticos: inadaptações, timidez, impulsividade, sentimento de culpa, desgosto obsedante, escrúpulo, excessivo, distrações desagradáveis, dúvidas persistentes, abulias, fobias, obsessões, neurastenias, neuroses de fracasso, etc.
2° Perturbações Sexuais: masoquismo, sadismo, homossexualismo, impotência, insastifação sexual, inibição, frigidez e outras.
3° Perturbações Somáticas de origem psíquica: gagueira, enurese, enxaquecas, algias, asma, dispepsias, paralisias e diversas moléstias de pele, como eczemas e similares.
4° Determinadas psicoses de ordem funcional, e não provocadas por motivos orgânicos, mas por um conflito intrapsíquico.
Há uma grande necessidade de psicanalistas para orientar as pessoas na solução de seus problemas existenciais. O profissional de Psicanálise ajudará a sociedade a ficar mais humana e a vida a ter mais sentido!
CARACTERÍSTICAS DO TRABALHO
2515 - Psicólogo e Psicanalista
Títulos:
2515-05: Psicólogo Educacional - Psicólogo da Educação - Psicólogo Escolar
2515-10: Psicólogo Clínico= Psicólogo Acumpunturista - Psicólogo da Saúde -Psicoterapeuta-Terapeuta
2515-15: Psicólogo do Esporte - Psicólogo Desportivo
2515-20: Psicólogo Hospitalar
2515-25: Psicólogo Jurídico - Psicólogo Criminal - Psicólogo Forense
2515-30: Psicólogo Social
2515-35: Psicólogo do Trânsito
2515-40: Psicólogo do Trabalho - Psicólogo Organizacional
2515-45: Neuropsicólogo
2515-50: Psicanalista - Analista (Psicanálise)
Descrição sumária:
Estudam, pesquisam e avaliam o desenvolvimento emocional e os processos mentais e sociais de indivíduos, grupos e instituições, com a finalidade de análise, tratamento, orientação e educação;
Diagnosticam e avaliam distúrbios emocionais e mentais e de adaptação social, elucidando conflitos e questões e acompanhando o(s) paciente(s) durante o processo de tratamento ou cura;
Investigam os fatores inconscientes do comportamento individual e grupal, tornando-os conscientes; desenvolvem pesquisas experimentais, teóricas e clínicas e coordenam equipes e atividades de área e afins.
A ocupação psicanalista não é uma especialização, é uma formação, que segue princípios, processos e procedimentos definidos pelas instituições reconhecidas internacionalmente, podendo o psicanalista ter diferentes formações, como: psicólogo, psiquiatra, médico, filósofo, teólogo, professores, etc.